segunda-feira, 18 de abril de 2016

O Saquinho de Sementes: Capítulo 3



No papelão a frase era bem simples:

“Siga seu corassão, sem ele não podemos seguir em frente, a mente manipula”

Luiz apalpou seu coração, olhou as estrelas daquela noite, sonhou com um mundo maravilhoso e foi dormir. No dia seguinte escondeu bem o papelão dentro da sua mochila e decidiu que o primeiro a escutar suas palavras seria um professor da faculdade. Depois da escola ele pegou a bicicleta e foi até a Faculdade de Agronomia que existia naquela cidade. Ele entrou faculdade a dentro e disse que queria falar com algum professor sobre um assunto muito sério e particular, o vigia deu risada e lhe informou que não era possível falar com nenhum deles, pois estavam todos muito ocupados. O professor marques de longe escutou a conversa e se interessou:

- O que você quer falar com algum professor? Posso saber?
- É particular.
- Pois então venha até a minha sala.

Chegando na sala do senhor Marques, Luiz ficou impressionado com a quantidade de livros, o tamanho da mesa e a linda vista que ele tinha da Escola de Agronomia. Sentou-se em uma cadeira bem confortável e lhe entregou o papelão proferindo a frase:
- Foi um mago do bosque que me deu.

O professor Marques leu, achou graça, e respondeu:

- Muito legal a frase garoto, mas “corassão” não com dois “Ss” e sim com “Ç”. Mas fico feliz que um garoto tão jovem como você se interesse por questões tão boas e legais. Mas me diga quem é esse mago?

- É um mago muito poderoso, ele sabe é que é bom e que é ruim.

- Onde ele mora?

- No bosque perto do matadouro.

- Olha, você deve ter cuidado com quem conversa, nos tempos de hoje nós não sabemos quem é quem.
- O mago seria capaz de avaliar se a cadeira que o senhor senta é boa ou ruim.
- Tudo bem. Apenas cuidado, certo? Na sua casa tem telefone? Qual o nome dos seus pais?
- Não posso dizer.
- Tá. Mas me prometa uma coisa, você não pode ir mais de encontro com esse mago certo? Ele pode ser algum bruxo muito perigoso e pode fazer muito mal a você. Obrigado pela mensagem. Tenha um bom dia garoto – e apalpou a cabeça do menino.

Saindo de lá Luiz ficou um pouco frustrado, ele deu muita pouca atenção ao que dizia o papel. Como mudar o mundo se ele sequer deu importância a frase do mago. Ele não sentiu em momento algum seu coração. O menino fazendo pouco caso aos alertas do professor foi diretamente a cabana do mago.

Chegando lá o garoto lhe explicou tudo o que aconteceu, a pouca falta de atenção que obteve do professor. Então o mendigo:

- Garoto, parabéns, você acaba de plantar sua primeira semente. Ele irá crescer. Estou orgulhoso de você. Agora tenho o que fazer, vá para a casa para não deixar seus pais preocupados.

O mendigo encostou embaixo de uma árvore e começou a beber.

Citroen 1996





Quando cheguei na Espanha em 1996 existia um cigano que morava na sucata de um carro antigo, creio que um citroen com pouco mais de 30 anos já na época. Ele morava com um montão de gatos e tinha um cachorro, bebia  a maior parte do dia e vivia da ajuda alguns vizinhos. A meninada adorava conversar com ele, ele contava melancolicamente suas inabilidades perante a vida, nunca estudara, sempre gostou de farras, até que um dia perdeu as forças, se distanciara da família e não entendia como tinha ido parar naquela situação. Mas dizia que nunca na vida ele iria para nenhum outro lugar, a prefeitura sempre vinha e tentava lhe levar para um abrigo. Mas ele dizia que para ali ele não iria, pois ele tinha que cuidar dos gatos e do cachorro, coisa que no abrigo era proibido. Por incrível que pareça, ele gostava daquela solidão, sempre estava a conversar com garotos e tinha seu cachorro ao seu lado. Certo dia um reboque chegou lá com um mandato judicial, devido a enumeras queixas dos vizinhos aquele carro sucata tinha que ser removido dali, pois estava faltando vagas para os morados do bairro. Então todos os garotos do bairro fizeram um grande apelo ao reboque, dizendo que assim como os moradores ele tinha direito a vaga. Eu me lembro que o mendigo cigano chorava e pedia para não levarem a sua casa. As autoridade disseram que sequer tinha documento, que ele viria a um abrigo. O reboque levou seu carro, sua casa. Numa noite de frio ele ficou chorando com seu cachorro ao lado. E disse, não posso abandonar meus animais. É tudo que tenho na vida. Vou ter que encontrar outro lugar para mim.

terça-feira, 8 de março de 2016

O Jazz e o subúrbio






Na noite fria,
subúrbio urbano,
Ainda resta lua,
resta amor,
resta Jazz,
Romance,
Restam velas,
Sobra frio,
Sobra Gin,
Sobra instinto feroz,
O som do sax invade,
sobram bitucas de cigarro,
Há um coração,
Restou o Jazz,
O rio é sujo,
mas nele a lua brilha,
Resta instinto...

Autor: Daniel Vidigal

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mergulho...








Cinco da manhã,
não sei exatamente em que estratosfera me encontro...
nas profundezas da minha mente...
o despertador toca...
( musiquinha moderna do celular)
mais cinco minutos...
um pouco mais...
Hoje não, nada mais...
e saio das profundezas do meu inconsciente para o mundo real,
Um ventinho gostoso...
uma bela vista para o mar,
yogurte e um pouco de café agitam a mente.
Hoje é dia de dar um mergulho,
abro o portão e vou ate a praia…
Para a minha surpresa a cachorra do condomínio me segue,
"volta Bela, volta"
mas ela sacode o corpo todo e me olha com cara de "eu imploro",
"volta... volta..."
…saio e ela me segue...
fazendo redemoinhos com o corpo.
Chegando na praia...
o som de espuma das ondas é maravilhoso ...
mergulho e a Bela vai também,
ela sabe nadar...
ahh…figura...
Nem vi a hora e já estava dentro do carro,
escutando Rolling Stones...
indo para o trabalho

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Cedinho...





Cinco da manhã,
não sei exatamente em que estratosfera me encontro...
nas profundezas da minha mente...
o despertador toca...
grgrgrgrgrgr
mais cinco minutos...
um pouco mais...
Hoje não, nada mais...
e saio das profundezas do meu inconsciente para o mundo real,
Um ventinho gostoso...
uma bela vista para o mar,
yogurte e um pouco de café agitam a mente.
Hoje é dia de dar um mergulho,
abro o portão e vou ate a praia…
Para a minha surpresa a cachorra do condomínio me segue,
"volta Bela, volta"
mas ela sacode o corpo todo e me olha com cara de "eu imploro",
"volta... volta..."
…saio e ela me segue...
fazendo redemoinhos com o corpo.
Chegando na praia...
o som de espuma das ondas é maravilhoso ...
mergulho e a Bela vai também,
ela sabe nadar...
ahh…figura...
Nem vi a hora e já estava dentro do carro,
escutando Rolling Stones...
indo para o trabalho.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

FM certa ... na hora certa



Novembro de 1973 em um bar nas ruas frias de Porto Alegre um homem solitário chama muito pouco a atenção, este se diverte olhando a vida alheia, a gritaria das crianças, as senhoras conversando, os garotos jogando futebol... Acende um cigarro atrás do outro e desfruta de um bom sanduiche com refresco e café. As vezes o ventinho frio corre pelas mesas, é uma delicia para quem está bem agasalhado. Trata-se de um homem inteligente, observador, sua grande diversão é observar o mundo e as pessoas. Paga a conta, dá uma volta ao redor da lagoa e vai embora no seu Corcel branco. O carro tem seus traços característicos, cheira puro cigarro. Vai dirigindo o carro bem devagar, não tem pressa alguma para chegar ao seu apartamento, nesse dia escolhe até um caminho mais longo e liga o rádio. Está baixinho, escuta-se apenas aquele chiado, música corriqueira de pouca qualidade, seguida de comentários sem muita importância. Do nada ele conecta em outra rádio e percebe uma melhor qualidade no som, aí se diverte um pouco com a música. Na entrada de casa, decide ficar mais um pouco, pois a rua está fria e sente um pouco de preguiça de descer do carro. Então uma sintonia um pouco familiar começa a tocar, ele conhece aquele som de algum lugar... trata-se de uma música de sua infância, dos tempos em que ia passar férias na casa de campo de sua Avó, todos dançavam, brincavam e pulavam, é puro instrumental, não há letras... apenas sintonia. As lembranças e as imagens de seus pais, irmãos, primos e avós, todos de mãos dadas sorrindo e cantando lhe invade o coração. O extasy se torna tão grande que ele não pode mais controlar, as lagrimas escorrem pelo seu rosto naturalmente. A música acaba, enxuga as lágrimas e olha para as ruas, o vento continua frio do mesmo jeito. Sorri, pois está feliz. Vai para casa, depois tenta por diversas vezes identificar que música era aquela, mas não consegue. Tentar reproduzir ela: traranam... traranam... mas ninguém se lembra. Sua vida continua, mesmo sem poder escutar a música, agora seu coração é um pouco mais terno. 

Imagem retirada de: http://carros.uol.com.br/album/2014/09/13/encontro-celebra-40-anos-de-passat-no-brasil.htm  em Maio de 2015.

domingo, 3 de maio de 2015

Escrivaninha Sim, Smartphone não...






Outro dia estive notando uma qualidade que eu tenho: a capacidade de me concentrar. Modéstia parte mas é isso mesmo, gosto de me sentar me isolar de tudo e pensar muitas vezes em único problema, seja ele de cálculo, da vida, etc. Isso é muito bom para mim, posso falar de uma experiência positiva que tive na minha criação e que hoje é muito importante. Em primeiro lugar a televisão lá em casa sempre foi regrada, com horários e todo tipo de regras, lembro-me que meu pai não queria que a gente assistisse qualquer porcaria. Em segundo lugar o esporte sempre veio em primeiro lugar, o vídeo game sempre sofreu uma censura muito forte, nenhum de nós criamos gosto por ele. Em terceiro sempre fomos incentivados a gostar de ler. Em quarto e um dos mais importantes, quando eu tinha sete anos de idade meu pai nos deu uma escrivaninha para estudos, era bem legal com porta livros e porta lápis. A mesma foi encomendada em um carpinteiro da cidade. Tenho a lembrança de que meu pai a todo custo queria que ela permanecesse organizada, a gente demora muitos anos para entender, mas ele já estava nos ajudando a ter algo muito importante para a vida: uma boa mesa de estudos ou uma boa mesa de trabalho, um local para que nos sentíssemos a vontade para produzir coisas boas.

Gosto de observar, há muita gente como esse grande poder de concentração, há pessoas com essa dificuldade, só queria dizer que os pais podem dar uma grande contribuição: Não de um smartphone, dê uma escrivaninha de presente.