segunda-feira, 18 de abril de 2016
Citroen 1996
Quando cheguei na Espanha em 1996 existia um cigano que morava na sucata de um carro antigo, creio que um citroen com pouco mais de 30 anos já na época. Ele morava com um montão de gatos e tinha um cachorro, bebia a maior parte do dia e vivia da ajuda alguns vizinhos. A meninada adorava conversar com ele, ele contava melancolicamente suas inabilidades perante a vida, nunca estudara, sempre gostou de farras, até que um dia perdeu as forças, se distanciara da família e não entendia como tinha ido parar naquela situação. Mas dizia que nunca na vida ele iria para nenhum outro lugar, a prefeitura sempre vinha e tentava lhe levar para um abrigo. Mas ele dizia que para ali ele não iria, pois ele tinha que cuidar dos gatos e do cachorro, coisa que no abrigo era proibido. Por incrível que pareça, ele gostava daquela solidão, sempre estava a conversar com garotos e tinha seu cachorro ao seu lado. Certo dia um reboque chegou lá com um mandato judicial, devido a enumeras queixas dos vizinhos aquele carro sucata tinha que ser removido dali, pois estava faltando vagas para os morados do bairro. Então todos os garotos do bairro fizeram um grande apelo ao reboque, dizendo que assim como os moradores ele tinha direito a vaga. Eu me lembro que o mendigo cigano chorava e pedia para não levarem a sua casa. As autoridade disseram que sequer tinha documento, que ele viria a um abrigo. O reboque levou seu carro, sua casa. Numa noite de frio ele ficou chorando com seu cachorro ao lado. E disse, não posso abandonar meus animais. É tudo que tenho na vida. Vou ter que encontrar outro lugar para mim.
terça-feira, 8 de março de 2016
O Jazz e o subúrbio
Na noite fria,
subúrbio urbano,
Ainda resta lua,
resta amor,
resta Jazz,
Romance,
Restam velas,
Sobra frio,
Sobra Gin,
Sobra instinto feroz,
O som do sax invade,
sobram bitucas de cigarro,
Há um coração,
Restou o Jazz,
O rio é sujo,
mas nele a lua brilha,
Resta instinto...
Autor: Daniel Vidigal
terça-feira, 24 de novembro de 2015
Mergulho...
Cinco da manhã,
não sei exatamente em que estratosfera me encontro...
nas profundezas da minha mente...
o despertador toca...
( musiquinha moderna do celular)
mais cinco minutos...
um pouco mais...
Hoje não, nada mais...
e saio das profundezas do meu inconsciente para o mundo real,
Um ventinho gostoso...
uma bela vista para o mar,
yogurte e um pouco de café agitam a mente.
Hoje é dia de dar um mergulho,
abro o portão e vou ate a praia…
Para a minha surpresa a cachorra do condomínio me segue,
"volta Bela, volta"
mas ela sacode o corpo todo e me olha com cara de "eu imploro",
"volta... volta..."
…saio e ela me segue...
fazendo redemoinhos com o corpo.
Chegando na praia...
o som de espuma das ondas é maravilhoso ...
mergulho e a Bela vai também,
ela sabe nadar...
ahh…figura...
Nem vi a hora e já estava dentro do carro,
escutando Rolling Stones...
indo para o trabalho
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Cedinho...
Cinco da manhã,
não sei exatamente em que estratosfera me encontro...
nas profundezas da minha mente...
o despertador toca...
grgrgrgrgrgr
mais cinco minutos...
um pouco mais...
Hoje não, nada mais...
e saio das profundezas do meu inconsciente para o mundo real,
Um ventinho gostoso...
uma bela vista para o mar,
yogurte e um pouco de café agitam a mente.
Hoje é dia de dar um mergulho,
abro o portão e vou ate a praia…
Para a minha surpresa a cachorra do condomínio me segue,
"volta Bela, volta"
mas ela sacode o corpo todo e me olha com cara de "eu imploro",
"volta... volta..."
…saio e ela me segue...
fazendo redemoinhos com o corpo.
Chegando na praia...
o som de espuma das ondas é maravilhoso ...
mergulho e a Bela vai também,
ela sabe nadar...
ahh…figura...
Nem vi a hora e já estava dentro do carro,
escutando Rolling Stones...
indo para o trabalho.
quinta-feira, 21 de maio de 2015
FM certa ... na hora certa
Novembro de 1973 em um bar nas ruas frias de Porto Alegre um
homem solitário chama muito pouco a atenção, este se diverte olhando a vida
alheia, a gritaria das crianças, as senhoras conversando, os garotos jogando
futebol... Acende um cigarro atrás do outro e desfruta de um bom sanduiche com
refresco e café. As vezes o ventinho frio corre pelas mesas, é uma delicia para
quem está bem agasalhado. Trata-se de um homem inteligente, observador, sua
grande diversão é observar o mundo e as pessoas. Paga a conta, dá uma volta ao
redor da lagoa e vai embora no seu Corcel branco. O carro tem seus traços
característicos, cheira puro cigarro. Vai dirigindo o carro bem devagar, não
tem pressa alguma para chegar ao seu apartamento, nesse dia escolhe até um
caminho mais longo e liga o rádio. Está baixinho, escuta-se apenas aquele
chiado, música corriqueira de pouca qualidade, seguida de comentários sem muita
importância. Do nada ele conecta em outra rádio e percebe uma melhor qualidade
no som, aí se diverte um pouco com a música. Na entrada de casa, decide ficar
mais um pouco, pois a rua está fria e sente um pouco de preguiça de descer do carro.
Então uma sintonia um pouco familiar começa a tocar, ele conhece aquele som de
algum lugar... trata-se de uma música de sua infância, dos tempos em que ia
passar férias na casa de campo de sua Avó, todos dançavam, brincavam e pulavam,
é puro instrumental, não há letras... apenas sintonia. As lembranças e as
imagens de seus pais, irmãos, primos e avós, todos de mãos dadas sorrindo e
cantando lhe invade o coração. O extasy se torna tão grande que ele não pode
mais controlar, as lagrimas escorrem pelo seu rosto naturalmente. A música
acaba, enxuga as lágrimas e olha para as ruas, o vento continua frio do mesmo
jeito. Sorri, pois está feliz. Vai para casa, depois tenta por diversas vezes identificar
que música era aquela, mas não consegue. Tentar reproduzir ela: traranam...
traranam... mas ninguém se lembra. Sua vida continua, mesmo sem poder escutar a
música, agora seu coração é um pouco mais terno.
Imagem retirada de: http://carros.uol.com.br/album/2014/09/13/encontro-celebra-40-anos-de-passat-no-brasil.htm em Maio de 2015.
domingo, 3 de maio de 2015
Escrivaninha Sim, Smartphone não...
Outro dia estive notando uma qualidade que eu tenho: a capacidade
de me concentrar. Modéstia parte mas é isso mesmo, gosto de me sentar me isolar
de tudo e pensar muitas vezes em único problema, seja ele de cálculo, da vida,
etc. Isso é muito bom para mim, posso falar de uma
experiência positiva que tive na minha criação e que hoje é muito importante. Em primeiro lugar a televisão lá em casa sempre foi regrada, com horários
e todo tipo de regras, lembro-me que meu pai não queria que a gente assistisse
qualquer porcaria. Em segundo lugar o esporte sempre veio em primeiro lugar, o vídeo
game sempre sofreu uma censura muito forte, nenhum de nós criamos gosto por
ele. Em terceiro sempre fomos incentivados a gostar de ler. Em quarto e um dos
mais importantes, quando eu tinha sete anos de idade meu pai nos deu uma
escrivaninha para estudos, era bem legal com porta livros e porta lápis. A mesma
foi encomendada em um carpinteiro da cidade. Tenho a lembrança de que meu pai
a todo custo queria que ela permanecesse organizada, a gente demora muitos anos
para entender, mas ele já estava nos ajudando a ter algo muito importante para
a vida: uma boa mesa de estudos ou uma boa mesa de trabalho, um local para que
nos sentíssemos a vontade para produzir coisas boas.
Gosto de observar, há muita gente como esse grande poder de
concentração, há pessoas com essa dificuldade, só queria dizer que os pais
podem dar uma grande contribuição: Não de um smartphone, dê uma escrivaninha de
presente.
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Entre o medo e a coragem
Cheguei no quarto da pousada uma da manhã, um dos lugares mais desertos que vivi, sempre foi tão distante que nunca me causou grandes preocupações. Estacionei o carro e entrei sem medos e imaginações, no local não há vigias, apenas cerca e o muro um muro baixo. Os ventos são fortes, como de costume em regiões serranas, estava tudo escuro, há lâmpadas apenas nos portões, porém, a área da pousada é muito extensa em relação aos pontos iluminados. Entrei, a chave do prédio fica escondida, nada me atordoava. Quando cheguei no quarto tomei uma dose de conhaque e verifiquei as minhas anotações, o dinheiro era bem contado, gostava de planejar meu dia seguinte todos os dias antes de dormir. Não pegava no sono, são raros os momentos em que tenho dificuldade de dormir, escutei um barulho alto no quarto do lado, era meu amigo que tinha ido dormir com o rádio ligado e a luz do quarto acesa, ele assim como eu, era um batalhador em busca de uma vida melhor. Peguei no sono também, e retornei a acordar umas três horas da manhã, fui beber água na parte de baixo da pousada, nunca tive medo de andar sozinho nos corredores velhos do estabelecimento, mas naquele dia tive algum tipo de medo, algum pressentimento ruim, dessa vez pensei realmente na possibilidade física de alguém entrar no meu quarto naquele momento, cada objeto perdido por ali parecia alguém me olhando, escondido. Desprezei esse sentimento e fui dormir. De certa forma eu estava sempre meio dormido e meio acordado, mas peguei no sono.
De repente meu amigo do quarto ao lado começa a gritar pelo meu nome e pelo nome da dona pousada:
- Ulisses, Ulisses, Dona Margarida, Dona Margarida...
Eram gritos muito fortes e altos, então ele começou a bater com muita força na porta do meu quarto, e sempre dando continuidade aos gritos. Fiquei espantado e acordei com o coração acelerado, cheguei a pensar que ele estava rendido, que alguém o estava fazendo de refém e queria entrar no meu quarto também, mas verifiquei a porta e percebi que se alguém de fato quisesse entrar, bastaria arrombar a porta:
- Ulisses, alguém entrou no meu quarto a noite e roubou meu pagamento e meu relógio enquanto eu dormia.
Os olhos dele eram de terror. Sua estrutura física forte e esbelta fora desmoronada pela sensação de vulnerabilidade.
- Ulisses, poderiam ter me matado, você tem noção do que esse bandido poderia ter feito comigo.
Sempre tivemos uma amizade horizontal, percebi que naquele momento eu representava algum símbolo de segurança para ele, pois ele parecia um bebe desesperado, a verdade era essa, um bebe. Tentei acalmá-lo, mais era impossível,desceu até a recepção e tentou ligar para um tal de Rogê amigo dele, em plena quatro horas da manhã, estava sem noção. Naquele momento me perguntei o que de tão sagrado para ele havia sido violado. Ficou por momentos carente, procurando ligar para a namorada, irmãs, etc. Naquele momento tive a impressão que tomou a dona da pousada como sua mãe, Dona Margarida se tornou por um momento a sua mãe, ele não desgrudava dela, e o tempo todo pedia que ela não o deixasse só, fiquei impressionado.
- Dona Margarida não sai de perto de mim por favor.
A Policia foi chegando, ele aos poucos foi se acalmando e o dia foi nascendo. As oito da manhã, já era novamente forte e vingativo, prometera a se mesmo se aliar a Policia e pegar o autor do furto...
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