quinta-feira, 28 de março de 2013

Do caos nasce um anjo



O sol começa a se por sexta-feira na vila do Pecém, Ceará. Com a chegada do porto, muito desenvolvimento veio para a cidade. Mas trouxe também drogas, assaltos, prostituição e som alto, fazendo barulho. De maneira alguma a vila perdeu o encanto do mar, pois há garotos jogando futebol por todas as partes, mães que levam seus bebês para passear, futevôlei, vôlei, casal de namorados, etc. O vento é forte e ele aos poucos empurra as dunas, dando esse charme que existe nas praias do Ceará. O porto e as obras atraíram também o pião de trecho, aquele que arruma as malas para onde há empregos, vai para onde for, desde que lhe paguem o maior cachê. Dorme na cama que a firma lhe arrumar, faz os amigos que vida trouxer e muitos deles namoram as meninas que o momento lhe oferece. Parece que tem faro, pois em poucos minutos chegam ao bar mais badalado de qualquer Vila. A semana geralmente é puxada e cheia de estresse. Um bar com muita cerveja é motivo suficiente para se aglomerarem. A primeira coisa que fazem é falar do perfil das mulheres da cidade, depois todos eles têm uma história de trecho para compartilhar: se forem da área de tubulação falam de toneladas montadas, os da elétrica falam dos cabos “megados” e por fim os da Civil falam de metros cúbicos de concreto.
Nunca deixam de elogiar como é gostosa essa vida de trecho, vivem como solteiros e ligam apenas no horário da noite para esposas, noivas ou namoradas. Sempre cortejam as garçonetes de qualquer lugar; algumas delas riem de qualquer besteira. A bebida aos poucos vai tomando conta, ela entra na mente que já está agitada como um amplificador de som, como batidas de um Funk bem alto. A risada se torna cada vez mais alta, as mulheres que gostam desse perfil riem também, têm paciência de escutar as fofocas da obra e as vezes até opinam.
O Mauro é operador de Guindalto, tem aproximadamente 45 anos e está no terceiro casamento; dança como um jovem desinibido e esta é possivelmente uma maneira de extravazar os problemas. O fato é que todo mundo o acha engraçado. Rapidamente já fez amizade com o Luiz que é técnico de planejamento. Algumas mulheres chegam perto e consomem bastante o Wisk que está sobre a mesa. Elas, na maioria das vezes, estão perdidas e desorientadas, ou sonham em ir a um lugar que não existe. O Jamir, técnico de segurança, levanta sua latinha e faz um gesto como se dançasse com uma mulher invisível. Rafael e João são dois jovens engenheiros bonitos que chamam a atenção das mulheres. Luiz e Fábio chegam por último, mais reservados, de certa forma eles não conseguem se inserir naquele mundo, nem eles mesmos sabem se isso é bom ou ruim. As meninas de um modo geral são sedentas por Wisk. Juliana, uma nativa da cidade, dança como uma pena explosiva, bem formada de corpo, não há homem que por instinto não a olhe por inteira. Há muita risada naquela mesa. Algumas são meninas que só querem beber, outras são prostitutas que foram atraídas pelas grandes obras. O som é alto e a noite vai tomando conta, todos vão ficando cada vez mais bêbados. Todo mundo namora. Jamir encontra Rafaela que é protistuta, ele curte ela...ela curte ele. Gostam do que acontece quando estão só eles.
O dia amanhece e uma nova bebedeira toma conta do sábado. No domingo, acontece outro forró. Como algumas nativas dançam! Quantas mulheres no mundo gostariam de ter aquela energia para utilizar apenas nos momentos certos.
A segunda-feira começa e um ambiente de trabalho estressante toma conta de todos eles: relatórios técnicos, ARTs, produção, cobrança do fiscal da obra e fofocas que só prejudicam o ambiente de trabalho. Na noite, não há paz, se procurar um amigo, há mais fofocas ainda. Falam de trabalho, filosofias de obras e se vacilarem bebem todos os dias.
Nessa vida dinâmica e ao mesmo tempo repetitiva, as semanas vão passando e as obras aos poucos vão acabando; todos dizem que irão manter contato, mas isso geralmente só acontece quando fazem parte do mesmo network, cada um aos poucos ganha seu mundo, ganham novos horizontes. Irão fazer parte dessa vida particular em outros lugares.
Jamir se foi e Rafaela ficou. Rodeada de amigas e sempre bebendo ela vai procurando outros homens do trecho, mas há algo dentro dela que incomoda, pois ela sabe que fez sem proteção. Sabe que Jair é casado, e agora? A dúvida a deixa muito angustiada. Será que estou grávida? O que faço? As semanas vão passando, os quadris vão mudando, o peso vai lhe caindo sobre a cabeça, todos os dias pela noite ao invés de beber ela passa a chorar. Um belo dia ela toma coragem e o resultado sai:
- Meu Deus, estou grávida.
As amigas a chamam de maluca, como pode transar sem camisinha.? Contatos e macetes para aborto lhe surgem, mas algo lhe chama e diz que essa criança tem que nascer. Dentro dela há força e ela decide ter a criança.
- Como você ganhará dinheiro sua doida?
O dinheiro vai acabando, ninguém sabe por onde anda Jair. Estava sozinha no mundo quando Carine lhe apareceu na vida e lhe ofereceu comida e casa para dormir. Aparecem também João e Artur, sensibilizados com sua situação, todas as noites lhe fazem uma visita e também organizam vaquinhas na obra para lhe ajudar. Comida não lhe falta, amigos que ela nunca imaginou que existissem aparecem.
Os meses vão passando e a barriga vai pesando. Sua vontade de ter esse filho torna-se contagiante. Uma advogada voluntariamente lhe procura e lhe orienta em como encontrar Jair para que ele assuma todas as suas responsabilidades e lhe garante que essa justiça funciona. Ela anda pelas ruas com um grande barrigão e, para algumas pessoas ela é apenas uma prostituta perdida na vida enquanto para outras, é uma guerreira... é possível sentir a vontade de vencer.
Certo dia Rafaela acorda, sentindo o peso da barriga com um novo sentido e se lembra de seu pai no Maranhão. Não seria aquele o momento de rasgar o ódio, as antigas brigas e ligar depois de tantos anos? Por mais que as pessoas ajudem, ela percebe que ninguém no mundo a ama mais que seu pai. Toma coragem e liga; no início, um grande silencio toma conta da situação e o velho  fica um pouco assustado, mas imagina sua filha grávida; ele também percebe que é hora de deixar essa maldição chamada orgulho de lado. E faz o convite para que ela volte para casa. O nascimento do bebê está programado para março. E em Janeiro ela já estava de passagem comprada para o Maranhão.
Antes de ir embora do Ceará ela faz um chá de fraldas onde apareceram cerca de cinquenta pessoas: gente do trecho, casais da cidade, jovens solteiras, senhores, senhoras,etc. Alguns ficavam, outros deixavam a lembrança e iam embora. A imagem da prostituta tinha se diluído, agora todos viam uma guerreira que com todas as dificuldades estava disposta a ser mãe.
Com oito meses de gravidez ela chega ao Maranhão. Alguns vizinhos a criticam muito:
- Some no mundo e retorna para casa desse jeito.
Pai e filha se mantêm fortes, aquele não era momento de acerto de contas. Ele se esforça e não deixa que a crítica e a fofoca vazia das pessoas surta efeito. Faz todas as vontades da filha. As vezes chora pela noite e percebe que terá de ser forte, sua filha precisa de ajuda e pede a Deus o equilíbrio que nunca teve.
O dia do nascimento chegou. Em um parto normal nasce um menino com os olhos brilhando para esse mundo. O pai de Rafaela ao ver a criança chora muito, se derrete e concluí que aquele anjinho era um presente de Deus. Rafaela olha seu filho, o sentimento mais inexplicável de mundo toma conta do seu coração.
Com a criança já limpa, pai, filha e neto se abraçam. Todos que ajudaram Rafaela estão presentes de espírito naquela sala, aplaudindo a coragem e o pulso de querer ser mãe. Os aplausos são altos, como final de uma grande opera. As pessoas sorriem e estão orgulhosas da protagonista, o som das palmas ecoa... todos se levantaram...ela apenas diz “obrigado” ....as energias são positivas... desejando toda a paz do mundo àquela família. Os olhos de Pedrinho brilham, ele tem um peito farto para se amamentar e uma mãe e um avô que o amam muito.

sábado, 23 de março de 2013

Aparente Paz


Resgatando um antigo texto...




Um senhor chama muita atenção em uma pequena cidade no sul da Bahia, pois ele fora grande produtor de Cacau, prefeito por oitos anos e deputado estadual por dezesseis.  Rico, bem sucedido, educado, bem casado e no fim da vida. Nessa pacata cidade ele tem paz, tempo para brincar com os netinhos, as netinhas, passear com sua primeira e única esposa, comer bolinhos, tomar café, etc,etc. Uma pessoa bem resolvida, feliz com tudo que viveu, que realizou e  construiu com muito trabalho: um patrimônio e uma família. Aos domingos sempre almoça na casa de sua filha caçula, seu xodó de sempre; quando os irmãos sentem saudades do pai, é aí que vão a seu encontro. Já tem netos de 30 anos e sempre gasta horas dando lhes conselhos sobre negócios, política, mulheres e casamento; é um verdadeiro líder dentro de sua família e a admiração que os filhos tem por ele chegou até os netos. Os filhos não quiseram seguir nem o ramo do Cacau nem o ramo da política; formaram-se em direito, engenharia e medicina; apenas dois netos herdaram essa preferência do avô pela política. As coisas na vida desse senhor sempre tinham andado tão bem, que ele não nunca teve necessidade de se perguntar, se questionar, se avaliar. Nessa maré de paz em que vivia, era uma pessoa arrogante, e não lhe sobrava tempo para avaliar sua postura durante a vida, nos negócios ou na política;  nunca enxergou nada além da linda família e do patrimônio criado. Na consciência, às vezes, lampejos de lembranças e ações lhe vinham à memória, mas nada que o mobilizasse. Sua mulher era um pouco conflitada com as posturas dos homens perante a vida e o amor ao próximo, mas nem ela mesma conseguia um pouco de reflexão nesse homem.
Passara o dia lendo na praça; chegando em casa saudou  sua esposa que, muito atenciosa lhe serviu um café. Do nada um surto lhe deu na cabeça e a imagem de uma linda menina,de seus três anos,  o atordoou um pouco. Perguntava-se de onde viria a imagem daquela garotinha; realmente, ele não se lembrava, mas seu subconciente guardava tudo e o castigava há 20 anos, a respeito daquela garotinha.  Em 1990, ano de campanha para deputado estadual, os investimentos na política foram muito altos, as cobranças dos partidos por resultados eram  ferozes, e era necessário fazer uma campanha mais arrojada, pois a chefia  não permitiria menos de 30 mil votos. A política é assim, ao entrar, o tipo de cobrança e anseios desvia os valores e objetivos dos mais honestos, é preciso ser uma fortaleza para se manter integro nesse meio. Preocupado com seus investimentos, conseguira apoio da televisão estadual para fazer 2 minutos de campanha em horário ao vivo. Mobilizaram-se diversos seguidores políticos que o ajudaram com muito esforço, a visitar locais carentes e prometer coisas descontroladamente, sem nenhum tipo de planejamento, essas ações infelizmente fazem parte desse jogo. Um minuto de seu horário foi destinado a uma área carente, sem hospital, luz e escolas por perto. Nessa área uma garotinha de três anos foi a escolhida para estar em seu colo. Era uma criança iluminada, tinha os olhos vivos, uma energia intensa, dessas de quem vem com uma missão na terra. E mesmo com as pressões que este homem estava sofrendo, seu coração se tornava terno, a garotinha o tinha alcançado. Mas o jogo precisava continuar, seu coração voltou a ficar duro, esquecido da bagagem e missão para a qual veio a terra e o horário foi gravado. Ele, sem saber se teria a verba para executar aquilo, sem planejamento algum, prometeu a essa comunidade hospitais, luz, uma escola e um parquinho. A gravação tinha sido um sucesso e todos comemoraram.  Na gravação que foi ao ar, a imagem da garotinha lhe dando tchau, viveria para sempre no fundo da memória desse homem. Ele se elegeu deputado nesse ano com 35 mil votos, as ansiedades passaram,ultrapassou os 30 mil votos, após se eleger ocorrem outras pressões que descomprometem tudo o que foi prometido à população, é complexo e difícil de explicar, os interesses são confusos, as linhas de poder se chocam, o dinheiro é direcionado de maneira pesada, lenta, inconseqüente. Os hospitais, os parquinhos as escolas, os negócios e as pressões políticas não lhe permitiam lembrar de nada, o jogo continuava, nenhuma agenda, nenhuma anotação. A garotinha teve uma forte pneumonia, seus pais foram ao hospital da cidade, ela foi medicada, e voltou a casa. No dia seguinte de manhã ela passava bem, queria brincar de novo na rua, teve uma rápida tosse, precisava novamente de atendimento urgente, mas o hospital era longe e não havia transporte no momento.  Morreu aos 4 anos no braço da mãe a caminho do hospital. Teve um enterro humilde, deixou atrás de si uma grande dor e muita alegria que ainda teria para viver. Nessa comunidade morava a amiga da amiga da empregada da casa do deputado; entre as pessoas humildes as noticias ruins correm rápido, gostam de espalhar a todas horas essas notícias que abalam o coração de todos.O deputado perguntou se tinha alguma culpa disso; em seguida lembrou-se da feroz  e confusa disputa de verba e se aliviou ; se sensibilizou, mas não sentiu responsabilidade alguma por seus atos.
Então naquela tranqüila tarde, estranhamente a imagem da garotinha lhe vinha a mente com mais freqüência. Só aí ele percebeu que aquilo o atordoara por anos: aquele hospital não feito,  a falta de verbas, aquela disputa por poder, não era nada com ele, mas algo dentro dele o forçava a se dar uma satisfação. E assim.atordoado, foi dormir. Sua mulher que sempre dormia com ele, naquele dia dormiu no sofá, sentada vendo a novela. O senhor dormia profundamente e certa hora viu a imagem da garotinha no seu quarto; seu coração quase lhe veio a boca e uma grande quantidade de energia reprimida por anos desabou sobre seu corpo  e, sentindo alivio e susto ao mesmo tempo, percebeu que a imagem era ilusão, procurou a mulher e não a achou; a energia gasta por ver aquela imagem tinha sido tanta, que não conseguia se levantar, retornou ao sono. Então sonhou com o lugar onde nasceu, com sua humilde mãe, pai e irmãos, de sua comunidade no interior da Bahia, da ajuda mútua que havia naquele lugar, de como se distanciou de tudo, de como a ferocidade do mundo com seus interesses  o afastaram de suas origens . E nesse sonho, ele sentiu uma grande dor sobre seus pulmões, uma dor que era absurda para uma criança de 4 anos e um senhor de 75, toda a sua cabeça e seu corpo haviam sido transferidos para o momento em que a garotinha tinha falecido, procurava a sua mulher ao lado da cama, meio acordado e meio dormindo, mas não achava nada, ela dormia profundamente no sofá, o grito forte e estrondoso da garotinha triturava sua cabeça e todo seu corpo, procurava explicações para tamanha energia e não achava. A garotinha pedia para ele cuidar dela, ele não conseguia responder. Em certo momento ele pegou desesperado na mão da menina  e lhe disse:  prometo que cuido de você querida, para toda a eternidade e os olhos da garotinha brilharam e o coração do homem não agüentou de emoção. Sua última lembrança de vida, era ele saindo de seu corpo, colocondo-a no colo, ela o abraçava com muita confiança, eles por fim haviam se encontrado. Tivera uma morte feliz. 

quinta-feira, 21 de março de 2013

A Música do Universo



O universo é uma composição de orquestras,
Chegar a espontaneidade,
É como sintonizar a rádio favorita,
A que verdadeiramente nos faz vibrar.
Quantas complicações, interferências e dúvidas.
Propostas ruins não nos faltam,
Desvirtuadoras e do mal,
O sintonizador da alma é o coração,
O da cabeça é o inferno,
É do mal que devemos fugir,
E ao coração devemos seguir,
A pessoa sintonizada,
Com a verdadeira canção do universo,
É inconfundível.
Pois ela transmite paz...
Confiança,
Esperança,
Prosperidade,
Equilíbrio e respeito.
Esta sim,
Percebeu o real sentido da vida. 

FIM

Dois vídeos de um que é para mim, o maior músico da atualidade, o maestro Russo Gergiev. Ele consegue incorporar um momento, uma época e a transmite em de forma música.Um gênio!









Escrito por: Daniel Vidigal
Foto: http://odeliriodabruxa.blogspot.com/

domingo, 17 de março de 2013

O insight

Baseado em fatos reais...



        Os três investidores do grupo de varejo “Estoque do Povo” planejavam a próxima compra em Vila da Taíba no Ceará. Vindos de Pernambuco, sua rede de supermercados ia ganhando aos poucos o território Cearense. Três amigos de faculdade que estudaram administração, tinham aberto como sócios o primeiro supermercado a pouco mais de 10 anos, hoje já tinham vinte e duas unidades entre Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. Todos eram quase quarentões. Viviam aquela transição entre homem jovial e experiente, bem casados desfrutavam de um bom momento da vida. José era o mais calado, seu forte era auditar os supermercados existentes, Rodrigo não tinha jeito para lidar com pessoas, porém, era um estrategista nato. Por último Marcelo era bom negociador e articulador. O ponto de interesse era um pequeno supermercado próximo a praça principal da cidade, eles enxergavam bem o potencial que o ponto representava.
- A cidade não tem mais para onde crescer, observe que uma rua complementar terá de ser criada, e não tem jeito, ela dará de frente para o mercadinho que queremos comprar – começou Rodrigo.
- Isso aí, ele quer 75 mil reais, devemos comprar logo, depois nos preocupamos com a construção da nossa marca, Estoque do Povo – afirmou José.
- Mesmo agora! Um supermercado de grande porte atrairia vários turistas, não há mercado nesse estilo por perto – prosseguiu Marcelo.
- É verdade, o fato é que devemos comprar- reforçou Rodrigo.
        Em uma mesa farta de cerveja e petiscos, eles foram até tarde discutindo todo tipo de estratégias empresariais. Davam explicações de porque algumas redes de varejo tinham crescido e porque outras tinham falido:
- Alguns varejistas perderam o foco no público alvo, ficaram oscilando entre a classe média emergente e a classe média antiga- explicava Rodrigo.
        O dia amanheceu ao som de um ventinho bem gostoso, os candidatos a compra chegaram ao mercadinho do senhor Edimir bem cedinho com um pouco de ressaca. Ele e sua esposa esperavam ansiosos os possíveis futuros proprietários. Não estavam precisando de dinheiro, ambos já com 70 anos mal tinham a visita dos filhos, pois cada um seguia seu caminho, entendiam bem esse lado da vida. Queriam voltar a cidade de origem Paracuru para ficar mais próximos de alguns parentes.
Os varejistas entraram comunicativos e educados. Se olhavam o tempo todo confirmando tudo o que haviam conversado, a ideia de Rodrigo o estrategista era espetacular, os 75 mil reais era um investimento inicial muito baixo. Com muito cuidado Edimir começou a mostrar o ponto: as estantes, o caixa, o local de carne, de frutas, etc. Depois os convida para conhecer a casa, que ficava no fundo e estava incluída na compra. Ali encontram uma varandinha bem simples com fundo para o mar, a mesa era de madeira e tinha em torno de 40 anos. Uma torneira de metal tinha suportado a maresia dos anos, pois era bem reforçada. Um cheiro de casa velha bem cuidada tomava conta do ambiente, era um cheiro gostoso. Quando Marcelo observou aquela casa (que nem estava em seus planos comprar) um “insight” lhe veio a mente. O mesmo se pronunciou bem educado e cauteloso:
- Senhor permita-me fazer uma colocação. Mas há anos isso aqui não é modernizado. A pia aqui de fora está suja de ferrugem, não há possibilidade de fazer um churrasco. Olhe essa mesa, não tem valor nenhum. Entendo que é sua casa, mas para os negócios esses detalhes não podem passar despercebidos.
        Nesse momento Edimir e sua esposa se olharam abismados, assustados. O olhar de sua mulher lhe sugeria compaixão pelo pobre Marcelo, pois ela tinha medo da reação do seu marido. Já o velho em poucos segundos sentiu uma lapso de centenas de sentimentos, mergulhou em um mundo que há tempos não habitava, lhe veio a mente a primeira vez que ele e sua esposa entraram naquele lugar, ambos com 16 anos, havia apenas um teto de palha e uma rede para dormir. Com a ajuda da vizinhança a casa fora levantada com as próprias mãos. Do tempo que gostava de entrar no mar com jangadas, a turma desfiava o peixe ali mesmo e comiam tudo com bainhão de dois e cachaça caseira. A ideia de fazer daquilo um mercadinho com o crescimento da cidade. Como foi difícil aquela decisão! Do nascimento do primeiro filho, as vezes nem tinham o que comer, mas Edimir recolhia as mercadorias do mercado, acordava quatro horas da manhã e ia vender tudo em Fortaleza, heroicamente voltava com dinheiro e comida para casa. Uma vez quase se separam e por dias ele dormiu na rede do lado de fora. De como sua mulher sempre mantinha a sabedoria e a calma nas decisões mais importantes que precisou tomar. Do dia em que mandou seus três filhos de uma vez para estudar em Fortaleza, o vazio que ficou na casa, sua mulher chorou por dias e foi a sua vez de ser forte e fazer com ela se acostumasse. Certa vez faltou dinheiro para mandar para as crias na capital, e o fundo da casa funcionou um tempo como barraca de praia para ganhar dinheiro. A formatura de cada filho que foi marcada por um churrasco com direito a luau pela noite. A alegria que os netos espalhavam quando ficavam nas mesmas redes que a varanda comportava... Infinitas memórias...
        Então ele nesse lapso de raiva, alegria e explosão o velho bem firme fuzilava Marcelo com os olhos. Já o negociador muito cauteloso procurava estudar psicologicamente Edmir, mas não conseguia chegar a nenhuma conclusão. Marcelo tensionava os lábios e as bochechas, algo parecido com um sorriso, torcia o pescoço e aguardava uma resposta de Edmir. Mas não vinha nada, então o varejista se pronunciou com uma voz de anunciante de aeroporto:
- Desculpe senhor, mas nosso grupo tem uma maneira transparente de fazer negócios. Colocamos na mesa o que é justo e sempre fechamos um valor que é leal para ambas as partes.
- Desculpe você, mas saia do meu estabelecimento.
- Como assim, fica tranquilo, mantenho os 75 mil reais e pagamos a vista- tentou se corrigir Marcelo sorrindo.
- Você não tem condições de entender garoto. Por favor, vocês devem ir embora.
O mercado nunca foi vendido, apenas arrendado ao filho de um antigo amigo que estava começando a vida com a esposa. Edimir voltou ao lugar de origem, Paracuru, onde passava muito tempo com os irmãos. Os varejistas nunca entenderam o que deu naquele velho.



Relatado por: Edimir.Escrito por: Daniel Vidigal

sexta-feira, 8 de março de 2013

Eterno e intenso, feixe de luz



Já entrei no altar várias vezes.
Viajei,
Sofri,
Sorri.
Voei,
Cada mulher que passou na minha vida,
Fez parte de uma longa...

...e infinita viagem,
Eterna de felicidade,
Projetada explosivamente, 
Naquele momento.
Existiram as crianças, 
A casa, 
E a rotina inatingível.
Tudo incandesceu,
Com muita intensidade,
Está  vivo e marcado na alma.
A cada relacionamento,
O gosto pela vida se torna mais intenso,
A alma feminina se torna mais próxima,
Pois está tudo aqui,
no meu coração. 



Autor: Daniel Vidigal
Imagem 1 : http://igorgambin.blogspot.com.br/2010/10/alma-feminina.html
Imagem 2: http://malumonte.blogspot.com.br/2011/06/viagem-insolita.html
Imagem 3: http://vagabundo.bloguepessoal.com/3/

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Burrocracia: Oscar e Katia



Oscar é um senhor de 76 anos que leva uma vida bem apertada; ganha uma aposentadoria de 890 reais por mês que é fulminada pelos remédios e pelas necessidades básicas. Seus filhos ajudam um pouco, apesar de também estarem sempre apertados. A esposa de Oscar,  Dona Helenice faz salgados todos os dias e arma uma banca na entrada de sua humilde casa e os vende para a garotada. Oscar,  que fora porteiro do mesmo prédio por 40 anos , também ajuda a esposa e adora prosear com outros senhores de sua idade sobre diversos assuntos, de futebol a política. Todo dia 10 é reservado para ir ao banco retirar sua aposentadoria,  na boca do caixa. Como vive em um bairro um pouco afastado,  tem de pegar um ônibus bem cedinho para efetuar essa atividade. Um belo mês ele escuta da caixa do banco:
- Senhor,  me desculpe, mas não há saldo para esse saque; ainda procurou , mas nada encontrou que explicasse o fato. A mesma caixa de todos os meses não sabia o que havia acontecido, queria ajudar, mas também não tinha as respostas, apenas a péssima noticia. Por fim ela se pronunciou:
- O senhor, terá de se deslocar até o INSS e averiguar o que aconteceu.
Oscar ficou sem chão, precisava do seu dinheirinho para resolver seus problemas, principalmente comprar seus remédios. Respirou fundo, tomou coragem e pegou um ônibus até o INSS. Lá retirou uma senha prioridade para ser atendido e mesmo assim tardou duas horas para chegar ao guichê de Amélia. Esta merece um pouco mais de atenção, tem 42 anos e aos 17 sonhava em ser pianista, fizera aulas desde criança quando tinha as mãos leves e espontâneas. Fez Faculdade de Pedagogia, mas não encontrou de imediato um bom emprego. Quando passou para o concurso do INSS,  uma grande festa foi feita em sua casa há 16 anos. Estava garantida na vida, agora os dedos que sonhavam em tocar para uma plateia, iriam conferir e formalizar protocolos. Amélia fez um contrato psicológico com seu trabalho, pois dele havia garantia de uma posição na sociedade e sustento para seus filhos. Mas a alma castigava e inconscientemente cobrava todos os dias seus sonhos;  sua alma espancava seu corpo, mas ela não percebia isso, pois esse processo era inconsciente. Essa foi a primeira atendente de seu Oscar, um pouco mal humorada:
- O que o senhor deseja?
- Saber por que a minha aposentadoria não caiu.
- Documentos, por favor.
Ele os entrega, ela precisou de um tempo para avaliar, e lhe respondeu:
- Todo seu processo foi cancelado, não sei por quê. Sumiu do sistema. Terei que fazer um novo processo para liberar seu dinheiro. Terá que trazer cópia da sua Certidão de nascimento, CPF, RG, comprovante de residência, PIS/PASEP, carteira de trabalho e por fim terá sua aposentadoria de volta.
- Mas como senhora? Tem ideia do que está me fazendo. Que castigo está me dando? Tem anos que não sei o que são esses documentos.
- Sinto muito senhor, entendo que é complicado, mas é o processo.
- Mas eu entreguei cópia disso tudo há 10 anos.
- O processo de 10 anos atrás não é mais válido, terá de trazer tudo que lhe indiquei. Expressou Amélia com um tom já resmungão.
Oscar anotou todos os documentos e no dia seguinte os recolheu e retornou ao INSS. Chegando lá se encontrou com Hugo. Acabara de entrar para o serviço público, tinha um bom penteado, sempre se vestia bem e era bem humorado. O churrasco de comemoração pelo concurso ainda estava presente, consequentemente o compromisso com o trabalho e com o processo também. Seu Oscar escutou de Hugo em um tom respeitoso e educado:
- Desculpe senhor, mas o comprovante de residência tem que ser no seu nome. Terá que protocolar firma em cartório afirmando que reside nesse endereço.
- Mas eu moro aqui.
Hugo puxou uma folha impressa do site e lhe informou:
- Veja senhor, está na internet. Terá que reconhecer sua firma em cartório – Hugo era educado, responsável e respeitoso em seu tom de voz.
Oscar não podia acreditar no que estava escutando. Não sabia se desmaiava, gritava ou batia no garoto. Mas respirou fundo, manteve a calma, tomou o ônibus e foi até o cartório. Lá durante toda a tarde fez todo o processo, reconheceu firma e informou formalmente com assinatura de tabelião que residia no endereço que estava em nome de sua esposa. Mas só teve tempo de retornar ao INSS no dia seguinte, quando por fim se bateu com Katia:
- Senhor, desculpe-me, mas nunca vi processo parecido. Vou consultar meu chefe, sinto muito, mas é o meu primeiro mês.
O chefe de Katia, Amélia e Hugo chama-se Rodrigo. Este também merece um pouco de atenção. Formou-se novo em administração e a verdade é que sempre esteve um pouco indeciso no que ia fazer da vida. Sua família, patriarcal,  pressionava muito para que ele tivesse uma posição na sociedade e por isso sofreu várias crises antes de chegar aos trinta. Em suas profundezas existem respostas ocultas que nem ele mesmo sabe. Está há 11 anos no serviço público. Tem um semblante razoavelmente descuidado. É barrigudo, pratica pouco esporte e gosta de tomar um shop todos os dias. É a única pessoa que pode aprovar processos fora de procedimento; seu terno e carimbo são notáveis. Aquele fluxo de papeis, aquela sala gelada, aquele prédio repetitivo, aqueles mesmos processos todos os dias. Assim era a sua vida. Então Katia lhe explicou a tragédia que estava acontecendo com Oscar e ele começou a filosofar... As angustias de sua alma indecisa e frustrada foram camufladas por um burocrata que demonstrava conhecer bem as regras do INSS. Gesticulava com muita propriedade, se expressava com as mãos e com o corpo, Katia rapidamente se perdeu em suas explicações. As vezes ele dizia:
- Percebeu a gravidade do processo?...O Ministério do trabalho....Por isso a importância do trabalho.
Katia lembra que Oscar a estava esperando e começou a ficar ansiosa. Por fim Rodrigo conclui:
- Katia querida, isso não é problema do INSS. Mas sim do ministério do trabalho. O protocolo inicial é feito lá. Só depois ele deve retornar aqui – ao dizer protocolo simulou na mão esquerda um papel e com direita simulou uma mão escrevendo.
Ela ficou um pouco confusa e foi  passar a informação a Oscar:
- Senhor, terá de ir até o ministério do trabalho. Aqui é apenas para dar entrada, e não para corrigir processos. É preciso declarar novamente e formalmente seu tempo de trabalho. Desculpe, mas são palavras do meu chefe, queria ajudar, mas não posso.
Nesse momento os olhos do senhor Oscar ficaram profundos, angustiados, desesperados... Mas respeitosos ,daí ele começou a falar em tom baixo, como se uma tempestade estivesse prestes a acontecer:
- Menina, tenho 76 anos. Há três dias rodo para tentar tirar minha aposentadoria, dinheiro com o qual compro minha comida e meus remédios. Trabalho desde os 14 e é direito meu. Aqui faz muito calor, gosto do ficar em casa tomando vento na varanda com a minha esposa. Pelo amor de Deus, olhe para mim e diga que está brincando. Que está tudo bem. Que posso ir ao banco retirar meu dinheiro.
Seu Oscar foi humilde e delicado nas palavras. Katia era uma menina nova e cheia de sonhos, seu coração derreteu. Ainda não tínhamos falado dela, vem de uma família fantástica, sempre fora respeitadora e dessas que gosta de chamar senhores de fofos, e abraça todo e qualquer senhor naturalmente ; é apaixonada pelo seu avô. Como uma menina de poucas oportunidades, viu no serviço público uma solução para trabalhar e ajudar sua família e tem apenas 22 anos. Foi verificar no sistema e percebeu que para resolver o problema do senhor ela precisava apenas preencher o CPF, RG, PIS/PASESP, CEP e havia um espaço a ser preenchido que era o endereço da pessoa. O restante era arquivado e levado para sala de arquivos, como uma maneira formal de registrar o processo. Ela foi até a sala de arquivamento e lá verificou vários papeis fora de ordem. Documentos que nunca ninguém iria checar, um caminhão aparecia às vezes para retirar os documentos e a algum lugar eles eram levados. Lugar seguro, sim, pois o processo precisava ser respeitado, mas ela entendeu tudo e retornou e ao guichê de atendimento:
- Senhor espere um minuto.
Pegou seus documentos, os arquivou e com sua senha liberou o dinheiro de Oscar. Tinha certeza de que na verdade estava sendo responsável, sem nenhum peso na consciência se pronunciou:
- Pronto senhor, pode ir ao banco. Lá você entrega esse papel aqui.
Oscar se foi e Katia ficou. Ela observava todos os dias pessoas que não sabiam consultar sites e que demoravam em torno de uma semana para reunir todos os documentos formais do processo. Via senhores como Oscar serem encaminhados a cartórios e outros órgãos, toda aquela quantidade de papel era arquivada e levada de lá, nunca ninguém consultava e abria aquelas pastas. Ela se perguntava: com tanta tecnologia porque todo esse processo é necessário? Queria abrir um pouco os olhos de seu chefe, para facilitar um pouco mais as coisas, mas ele sempre focava no processo, e adorava todo e qualquer tipo de protocolo. Ela percebeu que quanto mais apagada alma de Rodrigo,  maior notoriedade o processo tomava, às vezes ele até dizia:
- Por isso eu e outros amigos estamos batalhando para corrigir esse processo e incluir novo protocolo – como sempre ao dizer protocolo simulava uma mão escrevendo na outra.
O coração de Katia todos os dias ficava um pouco mais triste e sempre que podia, o processo era burlado. 
Escrito por Daniel Vidigal
Foto: http://notasverbais.blogspot.com.br/2012/02/secretario-total-do-mne.html

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Baía de todos, todos os Santos


Foto 1: Desconhecido (se alguém conhecer o fotografo fico agradecido)

O dia amanhece na Baía de todos os Santos, um dos maiores presentes que a natureza deu a cidade de Salvador. O sol aos poucos invade a água provocando um leve brilho, evento que privilegia a todos que tem essa vista. Sandro e Lucia apreciam esse  espetáculo todos os dias, vivem ao lado da Igreja da Conceição e uma pequena escada dá acesso ao apartamento. Trata-se de um prédio que tem pouco mais de cem anos, foi provavelmente a casa de alguém muito rico a um centenário atrás. Os quartos em sua maioria são ocupados por prostitutas que trabalham na avenida sete ou atendendo marinheiros que descansam no porto. O quarto tem um leve cheiro de mofo, por mais que ele seja limpo o cheiro ficou impregnado. O colchão é defeituoso como um todo, mas ha pouco tempo para reclamar e se queixar dessas coisas, até mesmo porque a infância de ambos fora muito pior. Ele fugiu de casa aos 15 anos porque era espancado pelo padrasto. Já ela foi abandonada quando criança, nunca se interessou pelo emprego de prostituta, chegou a fase adulta pedindo esmola nos semáforos e na adolescência aprendeu a lavar roupas, profissão que lhe permite um lugar digno e não perturbador na sociedade até hoje. Sandro por sorte tem seu próprio negocio, ele é flanelinha, o mesmo alugou um ponto bem movimentado onde se guardam muitos carros. Ao contrário da maioria dos seus colegas de profissão ele é conquistador e encanta a todos os clientes, nasceu para ser popular.  Seu ponto é muito disputado, mas não vale a pena entrar nesses detalhes, o “dono” da rua só lhe fornece o local porque sabe de seu potencial. O dia vai passando para Sandro, o mesmo sol que brilha e encanta de manhã cedinho, agora torra. Haja energia, a água é escassa, alguns não querem pagar, outros pedem uma lavagem... O dia vai passando para Lucia também, as roupas não param de chegar, tudo é lavado na mão em um beco que faz um calor insuportável, o ar simplesmente não circula. O coração pulsa, as mãos respondem e ambos desempenham seu papel na sociedade... A ninguém eles incomodam, as vezes parecem que nem existem. No mesmo compasso das batidas do coração a noite chega. Com o dinheiro arrecadado a quantia do aluguel da rua é separada, grave encrenca se o mesmo não for pago. O dinheiro da noite dá para uns pãezinhos com presunto, as vezes até para um leitinho. A Baía de todos os Santos no horário da noite é linda, a lua sempre está presente, de mãos dadas eles apreciam a noite. Tudo o que eles têm na vida é um ao outro, eles não querem incomodar, apenas trabalhar, apenas viver. Lucia na hora de dormir pensa em ser mãe, mas olha a sua volta e reprime o sentimento. Sandro pensa em ser pai, mas quando olha pela janela, observa meninos de rua fumando craque e se pergunta: Com quem meu filho iria brincar? Uma leve lagrima lhe escorre no rosto, com o dedo um pouco sujo ele a limpa. O sono toma conta, eles dormem, descansam, deverão estar prontos para mais um dia.
Escrito por: Daniel Vidigal


Foto 2: Desconhecido(se alguém conhecer o fotografo agradeço a  ajuda).