Em certa vila onde fortes ventos ecoam casas adentro, vive um senhor de idade avançada, não se pode chama-lo exatamente de infeliz, mas uma coisa é fato, ele é solitário. A vida lhe reservou as mais duras experiências, nem por isso ele perdeu a vontade de brilhar. Tem a cerveja como sua fiel companheira nas longas noites de ventos fortes, outra terapia que ocupa sua mente é limpar a casa. Muitas das pessoas que lhe passaram na vida lhe trouxeram sofrimento, mas ele sempre encarou como amadurecimento, entende perfeitamente a estatística do universo. Dessas pessoas seu coração só guarda os bons momentos. Seus filhos são bem criados e são felizes, mesmo assim pouco os vê, sua natureza lhe indica ficar a pensar e pensar, tem ótimo relacionamento com a ex mulher, tem orgulho de suas crias.
A aproximação com as pessoas é complicada, seu temperamento não é exatamente o padrão, facilmente entendido. Certo dia em sua solidão uma cachorrinha lhe apareceu em sua porta, lhe bateu um certo desespero, pois em momento algum ousou abandona-la, mas era completamente incapaz de partilhar parte do seu dia com uma cadelinha. Se perguntou como havia invadido seu quintal e o que fazia ali dentro. Então comprou um pouco de ração... e cadelinha e dono da casa ficaram se encarando por horas. A cadelinha tinha aquele olhar doce... difícil interpretação, já ele bebia e mergulhava nos mais profundos questionamentos que um ser humano pode se fazer e se perguntava: De onde saiu esse animalzinho?
No outro dia pela manhã saiu a rua e perguntou a alguns garotos de quem era aquele bichinho, eles rapidamente reconheceram “a peteca”, mora no final da rua. Até lá foi com a cadelinha e um montão de meninos atrás dele, bem sério continuou caminhando. Chegando lá não havia ninguém em casa e a peteca foi passada por cima do portão.
No dia seguinte quando chegou do trabalho eis a surpresa, lá estava ela de novo. E mais um dia ele a devolveu. Esse processo se repetiu várias vezes, ele aos poucos se apegava de certa forma a cachorrinha. Certo dia a dona de peteca se perguntou: Damos tanta atenção a essa cachorrinha, porque será que ela sempre vai a casa daquele homem? Ele por sua vez bebia, brincava mais não entendia. E a questão ficou no ar, nos fortes ventos que ainda mais dúvidas provocavam. O que será que peteca encontrou naquele senhor? Ou vice versa... mas a minha opinião é que a Peteca faz o que ninguém consegue fazer, invadir sua solidão e lhe trazer um pouco de paz.
Sair para se divertir em uma grande cidade é uma correria, tudo está cheio, se sai para comer, a comida é feita em grande escala. As vezes tenho a impressão de que essa diversão é um processo automático, como uma agenda organizada. A semana é estressante e tudo é para ontem, então o mesmo se vê em comportamento de certos clientes, não podem haver erros, não estrague meu prazer, anote tudo e não atrase nada, nem um minuto. O fruto do meu dinheiro é fruto do meu estresse, a causa da minha diversão, é exigir do outro, do aquilo que de mim essa grande cidade exige, mas mal percebo, que esse seria o melhor momento para de tudo eu me desligar.
Há tempos não me via tão entretido em um romance como este, a
escritora Emily Bronte fornece ao livro uma atmosfera particular, a genialidade
do enredo é complexa, mesmo assim vou me ousar a escrever uma crônica. Tudo
começa com a narrativa do Senhor Lockwood, um cavalheiro inglês que muda-se
para uma isolada casa de campo em busca de tranquilidade e afastamento da tão
conturbada convivência urbana. O proprietário das terras, o Senhor Heathcliff,
carrega um passado cheio de ódio e vinganças, em busca dessas respostas começa
a narrativa da Senhora Dean, uma criada daquelas terras que conhecia o desenrolar
do enredo.
Heathcliff fora encontrado ainda como menino e cigano nas
ruas pelo senhor Earnshaw, o primeiro proprietário das terras há muitos anos
atrás do começo da narrativa do romance. Em pouco tempo a presença do cigano provoca
desavenças entre seus filhos biológicos, Catarina e Hindley, ocorre um terrível
conflito psicológico naquela casa. Seu filho biológico Hindley cria um ódio
profundo de Heathcliff. Em poucos anos o senhor Earnshaw morre e seu filho Hindley
assume os comandos e começa uma série de maus tratos aocigano Heathcliff. Nessa mesma época
Heathcliff e Catarina Earnshaw irmã de Hindley começam a viver um amor de
infância, recheado de lindos passeios pelos campos, aventuras ao escurecer,
descobertas por florestas, etc. Já moça Catarina se interessa por um jovem da
alta sociedade, Edgar Linton, moço educado, rico e de boa índole. Ela nega seu
amor a Heathcliff devido a interesses financeiros e por querer fazer continuar
fazendo parte da alta sociedade. O cigano Heathcliff ganha o mundo com o
coração amargurado. Os anos se passam, Catarina se torna uma mulher feliz com
Edgar Linton, Hindley tem um filho chamado Hareton, mas com a morte de sua
esposa se torna alcoólatra e viciado em jogo.
A senhora Dean sempre tentava manter a ordem no caos que
muitas vezes se tornava inevitável. Heathcliff
reaparece rico e bem aparentado anos depois, disposto a reconquistar Catarina. Esta
não nega seu casamento, tão pouco seu amor ao que se tornaria seu amante, julga
Heathcliff perverso, já seu esposo
Edgar, o acusa de fraco pelo ciúmes. Uma espécie de manipulação destrutiva, difícil
para um homem descrever esses sentimentos. Caso queriam melhor detalhes sobre o
comportamento de Catarina, melhor ler o livro e conferir pela própria
escritora. Heathcliff casa-se com a irmã de Edgar Linton, provocando um ciúme doentio
em Catarina, que em seus conflitos começa a delirar, torna-se doente e morre
dando a luz a uma linda menina que possui seu nome.
Nessa fase do livro, faço questão de chamar a atenção, pois
nela é como se duas flechas fossem lançadas suavemente, dois sentidos a existência,
quanta ousadia a minha. Edgar Linton supera a traição, a morte da esposa e cria
sua filhota Catarina com todos os valores, carinho e amor que um pai pode dar. Já Heathcliff continua raivoso e vingativo,
sua última intenção é casar seu filho com Catarina, para que com a morte de
Edgar Linton, se torne o dono de todas as terras, concluindo seus planos. Edgar
Linton morre doente e com amor no coração, com a idade aproximada de 40 anos. Sua
filha, uma menina educada e boa, porém, com todas as imperfeições que um ser
humano pode ter, é forçada a se casar com o filho de Heathcliff, este morre
poucos dias depois, o casamento serviu apenas para o roubo da herança. Me
referi a duas flechas, pois uma trata-se da postura de Edgar Linton perante aos
problemas e aos imprevistos da vida. A outra é a vingança e o ódio de Heathcliff,
em momento algum a autora do livro aplica qualquer moralismo ao mesmo, apenas
cita as etapas. Heathcliff é um mortal incapaz de superar as surpresas que a
vida lhe reservou, nem por isso merece ser uma alma infeliz, pelo menos não
nessa vida. No final da estória a jovem Catarina se apaixona pelo seu primo
Heraton, Heathcliff a essa altura da vida se vê sem folego de prosseguir. O
livro deixa a entender que Heathcliff começa a ser assombrado pelo seu antigo
amor, Catarina... isso o deixa doente, pois a morte é para ele a liberdade... morre,
e lendas de assombrações tomam conta do povoado, ambos fantasmas se amam pelos
jardins dos pântanos. Já Catarina e Heraton começam um amor puro e prospero. Eis
as duas flechas!. Elas não se encontram no livro, mas creio que é possível
senti-las, um clássico é sempre um clássico, mas esse para mim deixa uma
mensagem, que eu como imperfeito humano vou tentar cumpri-la: pouco moralismo,
mais amor e muita fé.