Quando projetamos um equipamento, a pressão que ele
deve suportar é um valor congelado, porém, que pode ser reduzido com o
uso. Já falar de pressão e ser humano é muito mais complexo, pois com o
passar do tempo alguns se habituam com
as pressões fortíssimas da vida, outros, a medida que vão envelhecendo,
se deterioram aos poucos e ficam cada vez mais fracos. Um equipamento,
além de suas funções operacionais, deve também equalizar a pressão
interna com a pressão externa e vejo que isso é muito parecido com o
nosso dia a dia. Recebemos diversos tipos de pressões externas e somos
forçados a ter estrutura interna correspondente para que possamos nos
equalizar com o meio externo. Mas o que é estrutura interna?
Claro
que também depende de religião e doutrina, mas a estrutura interna de
uma pessoa é construída, em primeiro lugar, olhando para dentro de si e
não para fora, projetando nos outros ou no mundo. E o que nos faz olhar
para dentro de nós mesmos? Desafios e adversidades, sem isso é muito
difícil ir adiante. Mas é
claro: tudo com calma, cautela e espontaneidade. Deixando vir aos poucos ; o processo é lento e a vida é longa e prazerosa.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Por do Sol em Ponta do Mel
Como
vim passar o São João em Mossoró não resisti deixar de ir à Ponta do
Mel. Ali pode-se ver o mar de um ângulo muito belo. Olhei várias vezes e
senti conforto, senti a imensidão, percebi o brilho da vida
e como é desafiante tentar entender toda aquela quantidade de água azul.
Olhava e olhava para tentar entender aquilo tudo, mas percebi que não
havia fim, poderia estar ali por horas, semanas e até anos mas não teria
todas as respostas. A sabedoria consistia
em curtir aquele momento, sem pressa, com paciência, ciente de que o mar
estaria sempre ali. Depois fui a um barzinho apreciar o por do sol e
tomar uma cervejinha. A música do bar fazia bem, apesar de ser brega. A
vista nesse ponto mais baixo também era preciosa.
Havia inúmeros barcos pesqueiros e o sol raiava sobre o mar. Ali havia
belas pedras, intactas, pois os pescadores nunca as haviam
desrespeitado. Na mesa ao lado havia pescadores tomando pinga e cerveja;
senhores que deveriam ter mais de 60 anos e que, apesar
de barrigudos, tinham braços fortes e muita disposição para trabalhar:
percebía-se que tinham saúde. A pele bronzeada há anos, já acostumada
com o sol, sem conhecimento de protetor solar. Um deles dizia que já
havia jogado com um jogador do Botafogo, famoso
na decada de 70, há 40 anos, no campeonato de Mossoró,; o outro disse
que naquele ano foi o melhor goleiro da região e, por fim, o terceiro
discordou de tudo e dise que o tal jogador do Botafogo na verdade só
tinha jogado em Natal e daí desencadearam uma longa
discussão; disseram inclusive que um dia iam chamar o tal jogador lá em
Natal, ainda vivo, para esclarecer tudo. Eles falavam sobre todos os
amores que haviam passado por Ponta do Mel, pois mesmo com o passar dos
anos um grande amor não se apaga nunca. Lembraram
também que a o horário de pescar no dia seguinte seria às 3 da manhã
devido a maré. Percebi que para eles não existe sábado, domingo nem
jornada laboral, suas rotinas são ditadas pela Maré e pelo sol quente.
Nessa conversa rica , cheia de vida e passado, o
Sol ia se ponto em Ponta do Mel. A sensibilidade de cada um quando chega
a determinado local tem suas particularidades e essa região próxima a
Areia Branca sempre me recebe bem. As energias aqui são positivas, não
há palavras e sequer imagens para descrever
o que é curtir um por do sol em Ponta do Mel.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Um surto de Felicidade
Acordou naquele dia feliz, sem problemas, sorrindo para as dificuldades,
vendo as adversidades como prazeres da vida a serem enfretados. Perguntando-se: E Agora? O que vou fazer?
Lhe veio a mente: Vou arrumar problemas maiores para a minha vida.
Lhe veio a mente: Vou arrumar problemas maiores para a minha vida.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Cheguei
em casa naquele dia, as estantes estavam arrumadas e a casa limpa.
Conferi todos os meus livros: todos no mesmo lugar, limpos. O Tapete
estava na frente de casa, local escolhido por mim há mais de
5 anos. A Janela limpa, sem sequer um arranhão, cheirosa, bem feita.
Verifiquei o banheiro e me aborreci um pouco pois a empregada havia
utilizado um desinfetando diferente, mas a pasta de dente era a mesma.
Fui até a sala de música, peguei um conto de Tchecov
para ler e coloquei Mozart. A música começou a tocar, fiquei ali
sentado curtindo a minha vida. Do Nada o vento tirou o tapete do lugar,
fui e coloquei no mesmo lugar. Voltei a sentar e o vento voltou a tirar o
tapete e várias revistas. Tentei colocá-los no
lugar, mas não consegui. Então, muita água começou a entrar em toda a
casa, tentei contê-la, mas não tinha como e uma grande piscina se formou
em toda a minha casa. Meus livros e toda a ordem de anos haviam se
desfeito e comecei a gostar da sensação daquela
piscina; subi até o lustre da casa e mergulhei nela. Lembrei de um
óculos de natação que tinha de infância, coloquei-o e comecei a
mergulhar pela casa toda. Em baixo d'água, a corrente era muito forte.
Na verdade era tudo muito divertido. Quando levantava
para tomar fôlego, me segurava no lustre e apreciava muito aquele
momento, pois há anos eu não era tão feliz. Vários animais e vários
amigos entraram na casa para brincar comigo, brincamos de pega pega
embaixo dágua e eu me saia bem como de costume. Certa hora
me faltou um pouco de ar. Quando acordei, o livro estava sobre o meu
peito, estava tudo no mesmo lugar e Mozart era belo e simples como
sempre.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Conto- Cinco Rolos de Altura
Os ventos sopravam fortes, naquele outono de 1992, em Cruz das Almas. Depois do almoço o sol era tão quente que nem cachorro ficava na rua. Daniel não conseguia parar quieto em casa e por isso, nesse horário, ficava subindo nas árvores e no muro para olhar a rua. Ficava contando os minutos para a hora de seu pai sair para trabalhar para que pudesse cair na “gandaia”. Jerônimo, irmão de Daniel, gostava de consertar os eletrodomésticos da casa e era mais caseiro. Sergio, vizinho deles, era um pouco mais velho e adorava contar “lorotas” para reforçar a sua superioridade. Alexandro tinha a mesma idade que Daniel, eram muito parecidos e quando ganhavam a rua, agiam como se o mundo fosse deles. Apesar do calor, o outono tinha uma característica especial: a partir das duas horas da tarde começava a bater um ventinho bem gostoso. Os garotos adoravam ficar em baixo das árvores gozando da sua deliciosa sombra. Nessa idade, tinham entre oito e dez anos e as coisas ainda eram misteriosas. Todo mundo adorava vir com alguma novidade para impressionar o grupo, seja relacionada a futebol, mergulho, casas de abelhas, etc. Mas o assunto que tinha maior importância nessa época do ano era pipa. Conseguir uma era um sacrifício: tinham que pedir dinheiro para as mães para comprar a linha e o papel. Certa vez o grupo, liderado por Sérgio, composto por Alexandro, Daniel e Jerônimo, tinha o objetivo de atrelar 5 rolos de linha em uma só pipa e colocá-la para voar bem alto. De começo a idéia parecia simples, más após as primeiras conversas as dificuldades começaram a surgir: primeiro, não era qualquer pipa que iria suportar uma altura de cinco rolos pois, se os ventos fossem fracos, a linha formava uma barriga que poderia botar tudo a perder; segundo, esta não poderia ser de papel, pois uma simples chuva daria um prejuízo de uma mesada para todo o grupo; terceiro, havia uma torcida composta por outros garotos agoureiros rezando para tudo dar errado.
A armação da pipa, tradicionalmente feita de bambu, não era suficientemente forte para suportar o vento. Assim, o bambu foi descartado e substituido por varetas da palha do dendezeiro, bem mais fortes e mais leves. Houve uma grande briga para ver quem iria montar a armação, pois havia uma grande disputa de quem era o mais habilidoso para tal atividade. Acabou que fizeram uma divisão: um iria cortá-las e usiná-las nas medidas certas, o outro iria fazer as marcações para que fossem colocadas, sem erro, na posição e o terceiro iria fazer as costuras para a conclusão da armação. A pipa foi feita de saco de lixo plástico para suportar uma possível chuva, mas a cola normalmente usada não iria funcionar no papel manteiga. Parecia que estava tudo perdido, mas o Sérgio se lembrou de uma cola reforçada que o seu pai deixava escondida em casa. Então ele foi lá e pegou-a escondido. Durante a sua utilização uma grande tensão tomou conta do grupo, pois o Sérgio disse que um menino que foi usá-la colocou os dedos na boca e, por desobedecer a seus pais, ficou com os lábios colados para o resto da vida. Essa história tinha sido contada por seu pai. Tudo deu certo: Sérgio e Jerônimo fizeram uma colagem perfeita do saco de lixo na armação. Era muito gratificante ver aquela pipa montada e reforçada. Construir o seu rabo era o mais fácil que restava por fazer. Aproveitaram os próprios sacos de lixo que sobraram para fabricá-lo e... a pipa ficou pronta.
Para colocar a pipa em operação o Sérgio começou a demonstrar medo de perder toda aquela linha e todo o trabalho que tiveram, fora que no dia, os garotos da rua, que não tinham ajudado em nada, estavam de plantão olhando tudo. Daniel, Sérgio, Jerônimo e Alexandro se xingaram por um momento: o Sérgio dizia que não ia dar certo, Daniel apenas observava, Alexandro queria que funcionasse e por fim, Jerônimo, que era um pouco teimoso, disse que a pipa ia voar e pronto. Jerônimo pediu que Alexandro segurasse a pipa para que ele a pudesse erguer com a linha. O primeiro vôo da pipa foi um momento gratificante. Foi muito legal escutar o barulho do plástico da calda se espalhando pela paisagem verde de Cruz das Almas. Então a linha da pipa começou a sair da lata de Nescau fazendo-a voar cada vez mais alto. Aos poucos ia se distanciando da zona de controle. A barriga ia tomando uma dimensão preocupante. Todo o investimento estava em risco. Quando a pipa estava a uma altura aproximadamente de dois rolos de linha parecia impossível continuar. Então Sérgio falou:
-Eu não disse?
O grupo não sabia como reagir. Sérgio tinha razão. Todos os garotos iam rir deles. Eram impotentes quanto ao erro que haviam cometido, pois a barriga já estava quase pegando em umas árvores distantes de uma fazenda. Uma decisão havia de ser tomada. Continuar ou desistir? Daniel interveio:
- Eu não tive todo esse trabalho para desistir agora. Vou até o final. Vamos pegar a lata de Nescau, uma bicicleta e sair correndo pela Rua puxando a pipa. Assim a Pipa vai subir, quem sabe, a uma altura de três rolos. Nesse caso os ventos não são mais fortes? Ali pode haver ventos que mantenham a pipa firme.
A idéia foi bem aceita pelo grupo. Sérgio pegou a lata de Nescau com a Bicicleta e saiu correndo e a pipa começou a subir rapidamente. Ai então um fato curioso aconteceu: os ventos começaram a soprar mais fortes, a linha se tornou tensa e a pipa começou a subir bem alto. Todo o grupo vibrava, pois era a primeira vitória parcial. Rapidamente a pipa tomou uma altura aproximada de três rolos de linha. Faltavam apenas dois. De fato, na altura de três rolos o vento soprava bem mais forte. Difícil era chegar até ali, mas a partir desse ponto a linha começou a desenrolar-se da lata de Nescau com uma espontaneidade surpreendente. Os garotos apenas desfrutavam do trabalho que tinham tido. A pipa era capaz de Voar até mais de cinco rolos. Era forte e coesa, diziam os garotos sorrindo.
- Olha só como a linha está tensa. Imagine a força que um avião não tem que ter para voar! Lá em cima os ventos sopram muito fortes.
Outros garotos da rua apareciam para conferir a força do vento. Faziam questão de tocar na linha e verificar como estava tensa. Rapidamente a pipa chegou à altura de cinco rolos. Ali ela permaneceu firme e forte por meia hora. A estrutura de palha de dendezeiro era forte o suficiente para agüentar o tranco.
A Pipa tinha que descer. Então o grupo percebeu que não tinha pensado em tudo, pois a Pipa tinha condições de subir, porém, a descida era muito mais complicada. Não havia condições de enrolar aquela quantidade de linha na velocidade que era necessária para a pipa não cair. Em um determinado momento a Pipa voltaria à zona de ventos fracos. Esta atividade ia exigir muito comprometimento do grupo. Começaram a enrolar a linha na lata de Nescau e combinaram que ia acontecer de maneira revezada para não sobrecarregar ninguém. Chegou o ponto em que a barriga da pipa começou a beirar as árvores. Então não havia opção. O grupo começou a puxar a linha numa velocidade maior do que a de enrolar na lata de Nescau. Isto fazia com que a linha começasse a embolar no chão, trazendo o risco de perderem-se os cinco rolos. O esforço feito pelos garotos era imenso. A sensação de frustração voltou a tomar conta do grupo. O revezamento era feito, mas era cada vez mais difícil manter a pipa e evitar o depósito de linha no chão. Outra idéia surgiu: começaram a correr com a lata de Nescau a na direção oposta da pipa. Todo o esforço não foi suficiente, pois a pipa embolou nas árvores. Sérgio e Alexandro começaram a discutir:
-Eu não disse seu Jumento – agrediu Sérgio.
-Preguiçoso, seu cara de azeitona estragada- retrucou Alexandro.
Marquinhos era um dos observadores que estavam ali para apreciar a pipa. Não tinha ajudado no projeto mas interviu:
- Galera, é só enrolar a linha e pegar a pipa encima da árvore. Vejam – apontou- vamos enrolando a linha até a árvore e chegando lá alguém sobe para pegar.
Os garotos entreolharam-se e concordaram com a idéia. Essa tarefa foi realizada bem rápido. Coube ao Alexandro subir na árvore. A pipa ficou um pouco machucada: ela não se livrou de alguns rasgos, nada que não pudesse ser consertado. Combinaram que a pipa não voltaria a voar. Ficaria na casa de Sérgio. Os garotos tinham a ilusão de que a Pipa seria guardada e sempre que a turma da rua comentasse o feito eles poderiam ver a pipa na casa do Sérgio. Os ventos foram diminuindo à medida que chegava o verão. A pipa foi destruída em uma das faxinas que a mãe do Sérgio fazia em casa. Outras realizações e necessidades apareceram na vida desses garotos, cada uma com suas particularidades e desafios.
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