quarta-feira, 31 de julho de 2013

Dona Iranildes



Senhora Iranildes reúne a família todos os domingos para almoçar, mãe de sete filhos e Vó de quatro netos, ela prepara tudo com muito carinho e nesses dias a casa é preenchida de alegria e juventude. Os domingos são os dias mais felizes de sua semana, todos a querem muito, e a ela filhos e neto lhes fazem muito bem. Casou-se com Senhor Itamar quando tinha apenas 16 anos, naquela época era uma moça cheia de vida energias e sonhos. Até vergonha de namorar ela tinha... o casamento com Itamar foi uma paixão louca... primeiro amor.
Em poucos anos a paixão morreu, as flores pararam de brotar e era preciso criar raízes para que o amor viesse a vencer, em prol dos filhos, da família e de sua felicidade o amor venceu. E assim ao longo dos anos ela foi vivendo, onde dos filhos ela não se desligava, a preocupação sempre foi frequente... uma mistura de vida sua e dos outros. As vezes ela tentou se desligar, viajar, até esquecer que tem filhos e marido... mas ali sempre ficou. Nos dias de hoje, ela sempre fica a pensar se os filhos estão felizes nos seus casamentos, se os netos estão estudando, se a pressão do marido está alta ou baixa, se ele tomou todos os remédios... se irá conseguir reunir a família no domingo, etc. Quando a casa esvazia, só resta ela e o marido..ali está ela todos os fins de tarde, sentadinha, assistindo novela e pensando que hora irá ligar para sua filha caçula... pois no fundo ela tem medo de incomodar... a felicidade dos filhos.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Pião de Trecho---Capítulo 8: São Paulo


A viagem foi muito cansativa, ela durou três dias e muitas vezes o ônibus demorava de chegar nos pontos de alimentação cadastrados pela empresa. Antes de chegar a Cubatão foi necessário passar por São Paulo capital, aquilo foi um novo mundo para Pedro, estava assustado e vislumbrado ao mesmo tempo. Aquele transito, prédios, avenidas eram completamente diferente do que Pedro realmente esperava. Sentia-se acuado, um pouco amedrontado, pararam para fazer um lanche em um posto de Gasolina, o sotaque das pessoas era bem diferente, ele não encontrou o perfil acolhedor das pessoas com o qual estava acostumado em Cachoeira. Pouco depois o ônibus seguiu para Cubatão, chegando lá a vista era horrível, chegou a ser agressivo para a Natureza de Pedro.




Ele notou que os demais poucos de importavam, concentrados estavam no escopo da Obra:

- Daquela torre até aquele tanque será o primeiro Pipe-Way. Só serão 35 Toneladas de suportes.

O ônibus parou em frente a um prédio velho que tinha a vista para outro prédio velho. Então o administrativo indicou que todos descessem do ônibus e lhes entregasse as carteiras de trabalho. Na espera havia outro administrativo responsável pelos alojamentos, com o sotaque de São Paulo ele falou:

-  Como foram de viagem?

- Muito bem, demoramos três dias.

- Aqui o alojamento são oito por quarto. Acabei de comprar lençol e toalha. O restaurante é ali em frente. Vieram quantos nesse ônibus?

- 37 Pessoas.

- Tem vaga para todo mundo. É só mandar eles irem para o terceiro andar e lá vão encontrar as camas prontas e as chaves dos armários.

- Onde é que tem um lugar para tomar uma gelada, não aguento mais ficar na água.

- Boteco com gelada aqui é o que não falta.

Pedro pouco tinha conversado e se enturmado no ônibus. Subiu até o terceiro andar e escolheu uma cama. Quando sentou na cama pensou em voltar.



Olhou a sua volta, todos estavam animados com a chegada:

- Vamos fazer os exames só amanhã. Hoje é dia de procurar lugar para tomar uma bem gelada.

Ulisses teve a preocupação de procurar Pedro e perguntar como ele estava:

- Como tá garoto? Gostou?

Pedro assustado respondeu:

- Mais ou menos, não era isso que eu tava esperando.

Então Ulisses que sabia que não poderia aliviar, respondeu:

- Pedro, aqui tu tá para ganhar dinheiro. Mas tem que me ajudar no serviço.

Pedro sentiu uma confiança muito grande nas palavras de Ulisses, diferente de Otamar ele inspirava o verdadeiro respeito e compromisso com as obrigações que o trabalho iria exigir.

- Eu tenho um filho da tua idade, sabia? Os administrativo vão cuidar de tudo. Se tiver algum problema pode me procurar, Pião da minha equipe não passa aperreio.

Ele se sentiu mais confortável com a presença de Ulisses, então a noite comeu um bom prato de comida, ligou para o orelhão de sua rua para falar com Carine, chorou de saudades e dormiu.

domingo, 28 de julho de 2013

Encontro





Perdidos,
Nos encontramos,
E agora...
... Juntos,
Trilhamos.

Escrito por Daniel Vidigal,






 — com Melina Sales.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Fotos

 
 
 
 
 
 
A imagem mais linda,

Não está no facebook,

Nem no Orkut,
...
É linda e intensa pessoalmente,

Van Gogh teria que voltar a pintar,

Para reproduzir a energia e a intensidade...

dos seus olhos.

Escrito por Daniel Vidigal Inspirado em Melina Sales

domingo, 21 de julho de 2013

Pião de Trecho --- Capítulo 7: O Trecho






O meses foram passando e as dívidas de Pedro só aumentavam, não conseguia de jeito algum equilibrar os gastos com as receitas. Seu casamento foi se tornando uma bomba, brigavam praticamente todos os dias:
- Que culpa eu tenho se fui demitido. Tu acha que eu queria essa falta de dinheiro? Tu acha que eu gosto de olhá pá cara do gerente nojento do banco, que só fala enrolação e me dá mais juro?
- Eu não saí de casa para viver esse inferno- respondia Carine.
Seu Samuel tentava intervir, mas Pedro não o escutava. Sem dinheiro e falta de habilidade para lidar com a situação o casamento estava por um fio. Ele tinha apenas vinte anos e ela dezenove. No intuito de relaxar ele começou a tomar cachaça todos os dias e sempre que podia jogava uma sinuquinha com Israel. A reaproximação com o primo foi inevitável, adepto dos trabalhos informais, estar com ele era como uma fuga, um convite para se desligar da realidade. Quando Pedro chegava em casa bêbado, uma nova briga explodia com Carine. No dia seguinte ele ia trabalhar amargurado: limpava terrenos, trabalhava de pedreiro, carregava caminhões, colhia laranjas, etc. Ficou com fama de grevista e não conseguia assinar a carteira em outros lugares. Sua luta sempre lhe permitiu que não faltasse comida em casa, viveu um grande estresse, mas de maneira alguma passou fome. A família de Carine começou a falar mal dele:
- Menina, cuidado para não virar homem de farra e te deixar com as duas crianças. Homem quando fica desempregado e começa assim, é só ladeira abaixo.
Pedro estava a ponto de explodir com tanta pressão, tudo ao seu redor ia contra ele, mas o mesmo também não conseguia direcionar as energias para as coisas certas.
Certo dia ele estava jogando sinuca com Israel e um homem se convidou para jogar. Era um homem de seus cinquenta anos e tinha o semblante bem cansado, seu nome era Ulisses. Juntos os três foram tomando cachaça e conversando futilidades. Até que uma hora ele perguntou para Pedro:
- O que faz da vida?
- Trabalhava nas obra, mas agora to desempregado e vivo do que aparece para eu fazer.
- Aqui tem pouca obra, num presta não. Tú tem sangue no olho para viajar e trabalhar fora. Sou da montagem industrial. Amanhã a tarde saio com toda a minha equipe para Cubatão em São Paulo, vai ter uma ampliação lá. To precisando de mais um pião para ir cumigo. Tu tem carteira? Quer vir?
Pedro ficou calado. Então Ulisses completou a proposta:
- Lá com as horas extras dá para tirar dois salários. Bem facinho.
Então Pedro que estava carregado de ódio, cansado e disposto a manter o padrão de vida, respondeu:
- Tô dentro.
- Você tem que tá amanhã cinco horas da tarde de mala arrumada na rodoviária.
Naquele momento Pedro queria que toda a família de Carine soubesse o quanto ele é bom, ele sim sabia conseguir os empregos... iria voltar a pagar as contas, de maneira alguma tinha medo do mundo, conhecia outros homens que viajam e pagavam todas as suas prestações.Como o casamento não ia bem e estava emocionalmente distante dos filhos, o dinheiro estava em primeiro plano. Chegou em casa bêbado naquele dia, por isso deixou para dar a noticia para Carine no dia seguinte. Quando ele acordou, a primeira coisa que ela disse:
- São oito horas já. Trabalha mais não?
- Arrumei foi empregão, vou tirá dois salário. Vou hoje de tarde para São Paulo.
- Mas Pedro, tu tá sendo afobado. Eu posso procurar trabalhar também. Tem muito restaurante aí precisando de menina boa.
- Mulhé minha num trabalha não, fica em casa cuidando dos meus filhos.
- Deixa de ser abestalhado. Tu vai cair nesse mundo, sendo que podemos resolver tudo por aqui.
- Vou me embora hoje as cinco horas da tarde.
Então Carine percebeu que todos os seus argumentos seriam em vão. Ele estava resolvido a viajar, estava tomado por algum ódio que ninguém, nem ele mesmo, conseguia explicar. No fim da tarde ele ficou um pouco reflexivo, nunca na vida tinha visto aquele homem, sequer sabia como era São Paulo... apenas se lembrava de algumas cenas de novelas. Olhava para o filho, para a filha...
As quatro horas em ponto ele estava na rodoviária com Carine e as duas crianças, Tiago chorava sem parar, de algum modo ele sabia que seu papai iria para longe. Gabriela estava apenas com quatro meses. Aos poucos outros trabalhadores foram chegando com suas esposas, eles conversavam sobre o escopo da obra em Cubatão:
- Lá serão duzentas tonelas de tubulação e noventa de estrutura.
- Negativo companheiro, ali serão  trezentas de tubulação e cento e quarenta e cinco de estrutura.
- A Dupond Construtora pegou parte dessa obra também.
- Acho que eles vão entra com o suporte...
Pedro observou de longe aquela conversa, mas pouco sabia do que aquelas pessoas falavam. Encima do horário o ônibus contratado pela empresa chegou, havia uma grande faixa “ Klan Engenharia”. Um rapaz perguntou bem alto:
- Todo mundo aí sabendo do salário e com as carteiras nas mãos?
Todos deram sinal de positivo, Carine fez uma última tentativa:
- Pedro não vá, por favor.
- Tchau, vou vencer lá em São Paulo. Vou voltar com dinheiro, será por pouco tempo.
Quando Pedro estava entrando no ônibus, Tiago que já tinha quase dois anos, pronunciou doces palavras:
- Papai...dimbora não papai...dimbora não papai.
Os olhos de Pedro se encheram de lágrimas, mas ele reprimiu o choro e entrou no ônibus. Estava um pouco cabisbaixo. Então um homem puxou conversa com ele:
- Primeira vez que cai no trecho?
-É.
- Ra Ra Ra, depois você acostuma. 
Dentro do ônibus todos conversavam a respeito de toneladas, firmas, estrutura, Gerentes. Pedro observa a Vila que tinha sido criado, agora ele estava indo para bem longe. Carine ficou apavorada com as duas crianças na rodoviária. O choro de Tiago era estrondoso, Gabriela nada entendia... e para longe Pedro viajava.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Pião de Trecho --- Capítulo 6: Desempregado


No dia em que foi demitido Pedro olhava o rio, as arvores, sequer sabia com que cara iria chegar em casa. O dinheiro já estava curto com o emprego... agora desempregado o mesmo não tinha tempo de processar o ocorrido. Aquele foi seu primeiro trabalho e com ele havia estabelecido a projeção de uma nova vida. Pensava em sua vida gostosa de casado, em Carine grávida de novo, no Som, no fogão, na geladeira, no sofá... naquela casinha arrumada, mas ele precisava estar trabalhando para manter todos aqueles sonhos. Suas responsabilidades e obrigações lhe pesavam como uma navalha. Um sentimento de ódio de Otamar e Aluízio tomou conta dele, se arrependia de ter subido naquele palanque, mas vida de pião é assim, não é dono de empresa, um dia pode estar trabalhando o outro pode estar na rua. A ideia de Carine grávida. Há! Essa era a pior de todas, a chegada de cada eletrodoméstico em sua casa, dos presentes comprados para seu filho.  O termo utilizado para a demissão do pião de trecho é “amarrar a lata”, a primeira amarração de lata o pião nunca esquece. Chegando  em casa deu a noticia que fora demitido, sua esposa teve sensações parecidas e de desepero... mas foi mais sábia que ele e lhe instruiu que mantivesse a calma, haviam direitos a receber até trabalhar de novo. Poucos dias depois ele recebeu todo o dinheiro do seu processo demissional, a grana era boa, mas a sensação de desemprego dilacerava sua auto-estima. E as prestações dos móveis e dos eletrodomésticos eram pesadas. Em poucos meses após a demissão nasceu sua filha e deram lhe o nome de Gabriela, a alegria tomou conta da casa, um bebê animava os ânimos de todos, mas os compromissos permaneciam. Até que a grana  acabou, então ele virou um leão e começou a ganhar dinheiro com o que aparecia, sua experiência em obras lhe permitia um número grande de trabalhos informais, mas esse dinheiro não era suficiente para equilibrar as contas, pois haviam muitas prestações. Carine percebeu que o problema de todo aquele desgaste estava nas contas atrasadas dos bens materiais, então lhe sugeriu que tudo fosse vendido e assim poderiam viver com pouco, mas em paz, ela escutou:
- Tá doida, vamo andá pá trás é mulé? Já já eu acho outro emprego, daqui de casa num sai nada, é tudo nossas conquista.
Em pouco tempo Pedro se tornou estressado e pouco carinhoso, trabalhava demais e a instabilidade financeira acabava com ele. Ele tinha certeza que a qualquer momento um novo emprego bom iria aparecer. Um dia ele foi pedir dinheiro emprestado ao seu primo Jeremias e escutou:
- Pedro, tu nem um sofá milhó que o meu, tua televisão é colorida... tú que se livrar das divida? Vende tuas coisa.
Por algum motivo na mente de Pedro ele achava que Jeremias tinha a obrigação de arcar com suas dívidas. O mesmo saiu em direção ao rio nervoso  e inconformado, lá tomou um banho para ver se passava o estresse, em vão. Diferente do primeiro filho, agora era um pai emocionalmente um pouco mais distante com Gabriela.  

domingo, 14 de julho de 2013

Pião de Trecho --- Capítulo 5: As consequências


Pedro quando chegou em casa explicou a família o ocorrido, o mesmo tinha sido corajoso em lutar pelos seus direitos, a partir daquele dia os exploradores nunca mais iriam deixar de pagar, tinha passado a conhecer a força do trabalhador, o Jorge iria lhes defender para sempre. Seu pai Samuel que pouco sabia de trabalhos de carteira assinada, mas muito sabia da vida informou que o mesmo se precipitou:
- Filho, você deveria ter tido um pouco mais de paciência, esses sindicalistas viajam o país atrás de bagunça e depois vão embora. Nois do campo devemos lutar pelos direito, mas também devemo cuida do nosso ganha pão, filho acho que você foi um pouco inocente.
Pedro tentou argumentar de todo jeito para seu pai, sua irmã escutava tudo com muita atenção, mas não conseguiu convencer. Samuel finalizou a conversa:
- Agora só resta rezar a Deus.
No dia seguinte todos retornaram ao trabalho como se nada tivesse acontecido, a secretária de Aluízio avisou que poderiam sair ao meio o dia com o cheque em mãos e recolher o pagamento no banco. O Gerente regional, Rodrigo, que era chefe de Aluízio estava na obra naquele dia, ele não aceitava a greve mesmo com o atraso do pagamento.
- Aluízio, que porra de controle é esse que você tem sobre seus funcionários, que apenas quatro dias de atraso são suficientes para uma paralisação? Que caralho de chefe de obra você é?
- Fui surpreendido, o Sindicato apareceu aqui sem avisar, sequer nos deu uma chance de negociar. E rapaz, o pior de tudo, vocês pagaram depois da paralisação, fica parecendo que só funcionamos sobre pressão. Sinceramente é muito complicado segurar essa turma com atraso de pagamento. ..
Ficaram discutindo nessa linha durante uns cinco minutos, o sindicalista Jorge seguiu para o sul da Bahia para realizar novas fiscalizações, em cada obra o mesmo tinha seus informantes e isso facilitava as paralisações. Otamar circulava do lado de fora da sala, o mesmo dava tudo por saber o que aqueles dois conversavam. Ele bem oportunista, bateu na porta e entrou:
- Bom dia Seu Engenheiro, agora eu quero saber o que vamos fazer com os grevista? Bota para trabalhar ou coloca eles para a rua.
Rodrigo se interessou pelo assunto e perguntou:
- Como assim grevistas?
- Esses menino aqui da região, foi quem fizeram a greve, tudo grevista, não gostam de trabalho não, é só dor de cabeça.
Aluízio ficou pensativo e deu sua opinião:
- É verdade, todo o movimento de paralisação foi realizado por um menino da região que eu mesmo contratei, devemos fazer uma limpeza.
- Tudo bem, Aluízio agora não é momento de demitir grevistas, deixa a poeira baixar e você os demite como corte de gastos, assim terá tempo para melhorar a sua equipe. Você tem 45 dias- finalizou Rodrigo fechando sua pasta e indo embora.
Cada dia de trabalho era terrível para Pedro, assim como Samuel tinha alertado o sindicalista Jorge ganhou o mundo e nunca mais apareceu, a vulnerabilidade em relação ao patrão voltou ao normal, o comportamento estranho do encarregado Otamar o assustava. Sua vida já era cheia de compromissos e para complicar ainda mais sua situação financeira Carine estava grávida de novo. Ele se arrependia todos os dias de ter subido naquela pampa discursar. O engenheiro Aluízio não falava mais direito com ele e isso também o preocupava.
Exatamente após 45 dias do término da greve Pedro e todos de Cachoeira da equipe de Otamar foram demitidos. No dia seguinte os substitutos chegaram, todos eram de Santo Antonio de Jesus, a mesma cidade de Otamar. Em poucos meses a situação financeira da obra voltou ao normal, o sindicalista Jorge se elegeu deputado estadual e Pedro ficou desempregado com três bocas para alimentar. Pela primeira vez na vida sentiu de verdade o peso, a crueldade e as injustiças que o mundo reserva a algumas pessoas.